Barriga
abre-caminhos muscular-adiposo
Não tem jeito: ela se impõe. Quer dizer, só quando você me olha de frente ou de lado. Falam que estou igual de costas, o que é mentira, sumiu aquela cinturinha de pilão que vovó tanto elogiava e que dela herdei.
Tem sido melhor assim, com ela amostrada. Quando ainda não é evidente (mas tudo já mudou), ninguém te respeita o tanto que você precisa. Não ceder o lugar no transporte coletivo é pouco frente à grosseria que a classe “mérdia” brasileira é capaz de fazer, por exemplo, num saguão de embarque.
Via de regra, esse é um ambiente que atrai seres humanos com predileção por formar fila. Em meio ao bololô de mala-gente-mochila, alcancei a raia de prioridade para ouvir que não sei onde que essa aí é prioridade, não estou vendo ninguém deficiente.
Eu podia ignorar, mas não. Eu quis dar meia volta para olhar bem no meio da cara da burra e falar: estou gestante e nem toda deficiência é visível, vá se informar.
Desço o finger rumo à aeronave, afogueada pela altivez hormonal. Explico para Barriga que às vezes aqui fora é assim, esbarramos com deficientes de empatia, gente aborrecida que só, e um chega-pra-lá é necessário. Outras, é a afetação que desconforta, feito quando aquele moço tascou-lhe um beijo em você sem mal nos conhecer — um chega-pra-lá era bem-vindo aqui também, mas o ímpeto de traçar limites por vezes nos escapa, dá um trabalhão e nós já estamos fazendo um baita esforço, né?
Depois explico para Barriga o que rolou: mamãe escreveu uma história que foi lida em voz alta por uma atriz durante um sarau; mamãe foi viajar com as amigas; mamãe foi fazer as coisinhas dela e essa sensação boa que te alcançou é um estado de graça inegociável que nós, eu e seu pai, cultivamos.



É inédito me sentir fabulosa com Barriga. Ora, cheguei ao mundo na raspa do tacho da década de 1980, fui socializada para ser uma fêmea hipercrítica do próprio corpo. É óbvio que não gostava dela e de suas dobras, relevos, estrias, manchinhas, pelo menos o umbigo é pra dentro. Ou era. Espichou-se, revelando uma verruguinha, alvo do indicador, feroz a cutucar a ansiedade com o que há de vir.
Já na academia do bairro, tudo adaptado porque gravidez não é doença, tem que se mexer. Pode pegar peso, pode fazer cardio, pode ficar de cabeça pra baixo, mas o professor não deixa para não aumentar o risco de queda. Tolero melhor esses limites desde que Barriga chegou, acompanhada de elogios mil: redondinha, durinha, radiante, linda, nem parece — exclamam, deixando nas entrelinhas um ufa, você não engordou, só esta grávida.
Mais cedo, no banho, conto para Barriga que hoje vamos pisar em terreno sagrado porque tenho essa coisa de inventar histórias que me colocam ao lado de quem constrói junto, e é tão bonito quando o coletivo faz sua magia, filho, você vai entender já, já.



É semana de Flip, a bolha da literatura só fala disso nas redes. Está sendo menos sofrido do que esperava não levar Barriga para desfilar por aquelas ruas pedregosas. O senso de autopreservação física e financeira falou mais alto. Aceitei que é temporário, que outras edições virão, até loguinho, Paraty. Dou conta só agora que o relançamento de Mora na filosofia foi provavelmente o último evento literário do qual participei como autora junto da Barriga. Especialíssimo, pois.
Passei a tarde em Olaria ouvindo que a gente não tem dimensão do que isso significa. O comentário era sobre o evento, mas serve para a gestação. Não, não tenho noção mesmo, só fabulo e confabulo. É na experimentação que incorporamos o tamanho e a profundidade desse tipo de episódio. Passado uns meses após setembro, talvez eu vislumbre melhor o que isso significa, talvez não. Não tem problema, não me preocupo com isso e a serenidade embala a maior parte do meu tempo, tanto que montei uma lista incompleta dos melhores momentos com Barriga até agora:
Sentir a mão da minha mãe na Barriga.
Sentir a mão do meu pai na Barriga.
Sentir o chamego do meu afilhado com Barriga.
Sentir meu amigo de infância recostar na Barriga para ouvir o que o guri cochicha aqui dentro.
Sentir as mãos de amigas saudando a Barriga.
Sentir Barriga deformar quando o pai fala, canta, toca — ela e a guitarra.
Sentir Barriga.
O baque vem quando ela vai embora, dizem. Parece que virar mãe é despencar do topo da cadeia alimentar (gestante) até o térreo subsolo (submundo?) social. Aí fodeu de vez: se não há um jeito certo de ser mulher, incontáveis são os jeitos errados de ser mãe.
Que seja.
O fato é que Barriga escancara caminhos para eu passar. Muitos eu sequer tenho dimensão do que significam, outros ainda vou conhecer.
Barriga é o lembrete indelével de que sou força criativa, terreno fértil.
Preciso não precisar dela aqui comigo para crer que serei capaz de continuar a escrever quando o futuro nascer.
Eu vou sentir tanta saudade da Barriga.
Até o próximo recado
(que sai antes de Barriga se despedir, acho)






lindo lindo lindo e a gente já ama muito essa Barriga neném <3
Que texto gostoso de se ler, Carol. Lindo chamar o filho em gestação de “Barriga”, parece que o trouxe ainda mais pra perto no texto :) trombei no seu texto através do Notes e, mãe de dois que sou, parei para ler os causos de uma grávida 😅
Ia te chamar para vir com a gente na Comadreria, mas acabei de ver que você já está inscrita por lá. Que prazer te ter conosco! ❤️ te desejo um lindo parto e momentos inesquecíveis com Barriga — fora dela ;)